Como um banheiro pode ajudar a organização da Copa 2010

29 06 2009

Soweto, subúrbio de Johannesburgo. Mais de 1/3 da população da cidade sul-africana, predominantemente negra, vive na área sudoeste da cidade, erguida originalmente como um acampamento de operários na corrida do ouro, apos 1886. Conhecida mundialmente como a resistência popular ao regime de apartheid na década de 80, já foi a zona mais pobre da grande região metropolitana. Hoje, tem facetas distintas, consequência dos novos, mas ainda difíceis, tempos sul-africanos. Bairros nobres, casas de classe média e zonas de favelas formam o Soweto de Nelson Mandela e Desmond Tutu, que ainda vivem na área, ao menos por parte do ano. Nas bordas mais miseráveis, onde ainda não há luz e proliferam minúsculos barracos de zinco, uma cena se repete: ao lado de cada moradia um banheiro de concreto, novo, numerado toscamente com uma tinta preta.

Os banheiros em questão são a arma do governo contra a corrupção, que em nada difere da experimentada diariamente pelo Brasil. O governo recorreu a uma necessidade básica da população para criar um cadastro que tenta reduzir a corrupção. Os moradores dessas áreas esperam por uma oportunidade no programa habitacional oficial e, sem o cadastro gerado pela instalação do banheiro, ficavam a mercê de uma lista aleatória, que geralmente servia aos interesses de corruptos que cobravam por benefícios e por acelerar processos.

O banheiro, quem diria, virou símbolo de transparência na África do Sul da Copa do Mundo de 2010. A um ano do torneio e após o ensaio geral da Copa das Confederações, vencida pelo Brasil no domingo, o país, no entanto, vai precisar de muito mais presteza e originalidade para enfrentar o desafio de organizar um dos mais importantes eventos esportivos do mundo.

No decorrer da Copa das Confederações saltou o óbvio: transporte e segurança são os calcanhares de Aquiles da organização do Mundial 2010. Nem poderia ser diferente, já que o país, e especialmente, Johannesburgo, tem índices assustadores de criminalidade e um sistema de transporte que praticamente inexiste. Aspectos que também serão cruciais na organização da Copa de 2014 no Brasil.

Não se espere que a Copa na África do Sul seja um copa européia. Nem poderia. Será a Copa que lhe cabe, com todos os dilemas e contradições da vida cotidiana. Curioso, no entanto, é que, até agora, o Comitê Organizador local e a própria Fifa, buscam pintar um falso retrato de normalidade. Mais: se incomodam com as naturais radiografias de uma obra inacabada e que necessita de soluções mais do que temporais, algumas delas reportadas pelo Terra nos últimos dias.

Danny Jordaan é CEO do Comitê Organizador da Copa 2010. Doutor em filosofia e administração, já foi presidente da Associação Sul-Africana de Futebol. Foi o responsável por arquitetar a candidatura do país para ser a primeira sede africana de um mundial da Fifa. Tem o poder da caneta. E por consequência gestiona interesses.

Quando ocupa a mesa de conferências de imprensa junto com Joseph Blatter e outros representantes da Fifa para falar sobre a Copa do Mundo, Jordaan admite que sim, há problemas, mas que tudo estará resolvido em um ano. É normal. Perguntado sobre os graves problemas de transporte detectados durante a Copa das Confederações passa a bola para o governo, que, no entanto, não está na mesa. Indagado sobre os graves problemas de segurança de uma cidade como Johnnesburgo, roubos, furtos e estupros, se irrita. Pede inclusive o fim das perguntas sobre o assunto. “Eu não entendo. Eu estive nos estádios, as pessoas andam tranquilamente. Não é a primeira vez que vocês perguntam isso. Vocês perguntam sobre segurança em todas as vezes. Podem fazer outra pergunta?”, diz Jordaan em tom de apelo.

Alguns membros do Comitê Organizador ensaiaram uma salva de palmas nos bastidores, mas poucos aderiram. Em seguida, outro jornalista pediu que o CEO dos organizadores respeitasse o interesse da mídia em qualquer assunto. “Queremos ler uma diversidade de assuntos nos jornais de vocês”, justifica Jordaan, visivelmente constrangido com a situação.

O presidente da Fifa, Joseph Blatter, prefere ficar em silêncio.

Silêncio também na hora de prestar contas. Pouco se sabe do quanto se investe e de como se investe. Nas palavras, apenas análises rasteiras.

O banheiro de Soweto, símbolo de transparência, poderia inspirar o Comitê Organizador da Copa 2010 e a Fifa. A melhor Copa é o melhor que um país pode fazer dentro de sua realidade, com transparência e interesse público, já que a maior parte da conta é paga pelo Estado. Algo que brasileiros também precisamos empreender para 2014.

fonte: terra


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